Especialistas alertam que números de afastamentos por transtornos mentais no Brasil e no mundo — junto à queda de engajamento — demandam novas estratégias já no início do ano
Enquanto muitas empresas brasileiras começam 2026 traçando metas ambiciosas de crescimento, produtividade e inovação, uma crise silenciosa já apresenta números que exigem atenção imediata: a saúde mental dos trabalhadores.
Segundo dados oficiais do governo federal, o Brasil registrou 472.328 afastamentos por transtornos mentais em 2024, um aumento de 68% em relação ao ano anterior, refletindo o maior número da série histórica. Cerca de 10% de todos os pedidos de licença médica no país têm como causa diagnósticos como ansiedade e depressão.
Esses números se somam a outras estatísticas preocupantes: no mundo, mais de 1 bilhão de pessoas vivem com problemas de saúde mental, incluindo ansiedade e depressão — condições que também constituem algumas das principais causas de incapacidade global.
O impacto vai além da saúde: produtividade e engajamento em queda
Além dos afastamentos, indicadores recentes mostram sinais claros de que os desafios emocionais estão prejudicando a performance no ambiente corporativo. Um estudo global de engajamento no local de trabalho apontou que, em 2024, apenas 21% dos funcionários estavam engajados, com números ainda mais significativos no engajamento dos gestores — um fator que afeta diretamente o clima, produtividade e resultados de negócios.
No plano global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que depressão e ansiedade custam cerca de US$ 1 trilhão por ano em produtividade perdida e dias de trabalho não cumpridos, com aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho perdidos por ano em decorrência dessas condições.
Planejamento estratégico que ignora saúde emocional tem prazo de validade curto
Para o consultor e autor Flávio Lettieri, mentor de líderes e especialista em desenvolvimento humano e organizacional, esses números demonstram que planejar apenas metas de resultado em 2026 pode ser insuficiente — e até contraproducente — se a estrutura emocional das equipes continuar negligenciada.
“Organizações podem ter os melhores planos de metas, mas se as pessoas que vão executá-los estão emocionalmente sobrecarregadas, esses planos rapidamente perdem tração”, afirma Lettieri, autor do livro Ansiedade: Aprenda a conviver com ela e equilibrar bem‑estar e produtividade. “A saúde mental precisa entrar nas metas corporativas como critério de sucesso, não apenas como um tema de recursos humanos.”
Empresas ainda subestimam o problema
Pesquisas também indicam que problemas como estresse, ansiedade e insônia afetaram até 86% dos trabalhadores brasileiros, por causa de fatores relacionados ao ambiente de trabalho em 2024.
Segundo Lettieri, muitas organizações ainda tratam a saúde mental como tema periférico ou benefício eventual, quando ela deveria estar integrada ao planejamento anual — inclusive com indicadores mensuráveis no balanço de desempenho.
“Metas de clima organizacional, níveis de segurança psicológica e indicadores de engajamento emocional são tão importantes quanto metas de crescimento. Quem não olhar para isso desde janeiro corre o risco de ver afastamentos, queda de performance e perda de talentos ao longo do ano.”
Agenda 2026 para empresas
Especialistas recomendam que gestores considerem:
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Integrar métricas de saúde mental no planejamento estratégico
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Capacitar líderes para reconhecer e apoiar sinais de sobrecarga
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Promover rotinas de bem‑estar com impacto real no trabalho
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Monitorar mensalmente, e de forma integrada, dados de absenteísmo e segurança psicológica nas equipes
